“Manter a tradição da cascata era uma forma de manter ‘viva’ a presença do meu avô nesta quadra festiva”

Joana Mesquita

Falar em continuar uma tradição é também manter viva a memória, seja de acontecimentos, coisas ou pessoas. A celebração do São João pelo país e especialmente no Norte de Portugal traz várias emoções a muitas famílias. Em casa de Joana Mesquita, em Gondomar, todos os anos a presença do avô é sentida em cada peça da cascata.

As Cascatas de São João fazem parte do imaginário de qualquer pessoa que viva esta época do ano com intensidade. Mais coloridas ou menos, umas maiores e outras mais pequenas, algumas com mais pormenor e mais peças… são representações em miniatura dos bairros da cidade do Porto, com figuras típicas e elementos da cultura popular.

“Quando recordo as cascatas feitas em casa dos meus avós, consigo visualizar memórias bem antigas, comigo bem pequena, a ver o meu avô fazer a cascata”, começou por dizer a jovem ao Jornal Referência.

O avô Zé fazia a cascata com areia, com vários níveis, e colocava vários ramalhos à volta a fazer “uma espécie de cobertura”. Joana Mesquita observava cada passo feito com muito cuidado e amor, mas, como ainda era muito pequena, “não sentia nenhuma ligação especial” nem entendia o que aquilo significava. “Recordo-me de jogar à bola com os meus primos e até o meu avô no pátio e depois acertar com a bola na cascata e ele ficar bem zangado connosco”, lembrou.

Cascata de São João, Joana Mesquita
Foto: Joana Mesquita

“Eu, o meu avô e a minha prima íamos a pé até um mato relativamente perto de casa. Depois, ele levava sempre umas miniaturas doces ou uns croissants para lancharmos. Fazíamos um pequeno piquenique, eu brincava com a minha prima e depois o meu avô cortava os ramos dos ramalhos e nós ajudávamos a trazer até casa. São memórias muito bonitas que tenho”, contou Joana Mesquita.

Mais tarde, à medida que foi crescendo, foi ajudando o avô nesta construção artística. Começavam por decorar o pátio de sua casa “com balões e bandeirinhas coloridas” e depois faziam a cascata: “Era mesmo uma tradição nossa que fomos construindo de forma natural”.

“Infelizmente, os avôs não são eternos, mas eu achei que manter a tradição da cascata era uma forma de manter ‘viva’ a presença dele nesta quadra festiva. S. João, para mim, sempre foi muito o meu avô Zé e os manjericos que ele comprava e as decorações que fazia. Perpetuar isso é perpetuar uma vida, memórias e um amor que mesmo ausente, fazemos presente”, partilhou Joana Mesquita.

Cascata de São João, Joana Mesquita
Foto: Joana Mesquita

Hoje em dia, a jovem compra os manjericos, que leva não só para os seus pais e padrinhos, como também para a casa do namorado, e constrói a cascata em sua casa juntamente com a sua mãe. “Criamos também memórias bonitas e com o mesmo sentimento de base: atenuar um pouquinho das saudades do meu avô tornando-o ‘presente’”, acrescentou.

Das 25 peças herdadas do avô e 17 mais recentes, Joana Mesquita vai tendo, todos os anos, novas aquisições, que compra no Senhor de Matosinhos. “Este ano, entusiasmámo-nos e trouxemos nove”, confessou, entre risos, referindo que o próximo objetivo é construírem na cascata uma banda, comprando dois ou três músicos a cada ano.

E sobre as peças mais antigas? Joana Mesquita garante que “todas as peças são especiais”, mas que, este ano, teve um significado diferente uma vez que decidiram restaurar as que foram herdadas do avô e já não estavam nas melhores condições. “Agora, mal se nota quais são as mais recentes e as mais antigas. Há peças na minha cascata com mais de 50 anos”, exclamou.

Cascata de São João, Joana Mesquita
Foto: Joana Mesquita

“Olho com muito amor para a cascata que faço todos os anos”, afirmou, referindo que, a cada São João, pensam de que forma podem colocar algo diferente do ano anterior. “Este ano montámos numa mesa grande no pátio, porque o sítio habitual já era pequeno para tantas peças. Acrescentámos luzes nos ramalhos e, em vez de usarmos só pedras, colocamos também um tapete verde e umas placas a imitar o chão”, explicou ainda.

“A nossa cascata é Amor. Um amor com saudade, um amor com memórias muito boas e felizes, um amor que se vai transformando, e um amor que perpetuamos ao manter viva esta tradição”, descreveu.

Quanto aos festejos de São João, eram realizados na casa do avô: “por isso a ligação tão grande”. “Ele assava as sardinhas – que, regra geral, ficavam todas esmagadas porque ele as virava no braseiro com muita força e elas amassavam – comíamos fêveras, ele lançava uns foguetes – todos os anos trazia algo de novo – e depois lançávamos balões num largo junto às nossas casas e juntávamo-nos com vizinhos a lançar balões”, recordou. “Agora que já não tenho os meus avós, os festejos são diferentes. O meu pai é músico e, durante muitos anos, nunca passei o S. João com ele porque estava sempre a tocar. Agora, eu e a minha mãe aproveitamos para ir até ao Porto ouvir o meu pai tocar e viver a festa na cidade. O S. João no Porto é algo que adoro”, declarou Joana Mesquita.

Cascata de São João, Joana Mesquita
Foto: Joana Mesquita

Contudo, a tradição que se perpetua nesta família não se fica pelo São João: “No Natal, também temos a tradição de fazer o presépio. A minha mãe tem uma pequena coleção de presépios em miniatura e depois temos umas figuras de presépio bem grandes e extremamente bonitas que eram também do meu avô”.

Cascata de São João, Joana Mesquita
Foto: Joana Mesquita

Para comemorar esta data festiva, Joana Mesquita partilhou ainda uma quadra que escreveu:

Nesta noite de S. João,
A cascata do Avô Zé é a rainha.
Mantemos viva uma tradição,
Que supera o balão, o pimento e a sardinha!

Foto: Joana Mesquita

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