Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Inexoravelmente, a altura das catraias sofre flutuações. A genética não tem sempre a resposta na ponta da língua. Umas situam-se, infalivelmente, mais perto do espaço sideral, enquanto outras gravitam na companhia do estio que faz no inferno. Porém, inevitavelmente, no fastidioso mundo do desejo, há sempre lugar para aquilo que não se é (e nunca se será): se as mais extensas verticalmente exprimem a vontade de retirar da lista de afazeres a tarefa “caber no Smart do namorado”, as exíguas gostavam de alcançar os armários distantes que salvaguardam as últimas tabletes de chocolate do Dubai.
Fatalmente, em meios sobrecarregados pela testosterona e pela elevada produção de suor, compara-se a espécie feminina de pequena estatura à sardinha, ao carapau e à cavala. Lestamente, os polícias da linguagem e os guardas nacionais republicanos dos é(esté)ticos dizeres carregam as armas com “mau-gosto”, “brejeirice”, “ordinarice”, “pulhice” e disparam. As vítimas não acatam as directivas do corpo de vigilância, amotinam-se e partem para as contracções de rosto vis e desproporcionais. Quando estive presente, assisti calmamente àquele espectáculo deprimente, quer por parte de quem oprime, quer por parte de quem é oprimido.
Pacientemente, aguardei o acalmar das hostes e o trajar dos boxers, somente para prevenir desvios de olhares imprevidentes. Após verificação, denotei que o caminho está livre. Compenetradamente, inaugurei o discurso que levei meses a escrever e, à medida que o profiro, senti o cerrar das pálpebras. Se calhar, senti demasiadamente e isso também pode ter efeitos contrários ao pretendido. Reproduzo o que rezei, fielmente, sem adultério, há semanas:
“Caríssimos, – para alguns de vós, isto é elogioso dado as etiquetas da Primark que abundam nesses ossos – vamos ver se nos entendemos. Por que razão a mulher de tamanho maior nunca é comparada com peixes de elevado porte? Já sei que os opressores dirão que é comparada a famosas infra-estruturas ou a peças alongadas que se cravam na terra destinadas a práticas agrícolas. Contudo, ainda não deram pelo paradoxo no qual se emaranharam. Passo a explicar: o termo “infra” designa aquilo que está abaixo ou que se situa em lugar mais baixo, inferior; ora, neste sentido, a título de exemplo, colocar a senhora arranha-céus no mesmo patamar da Ponte 25 de abril representa uma incorrecção ao nível da coerência/literalidade da língua de Camões. Apelo, por isso, ao emprego das façanhas símiles com base na consulta do acervo dos oceanários que povoam o globo, dos manuais de identificação de peixes, de teses de mestrado e doutoramento em áreas ligadas à Biologia, entre outras possibilidades. Vamos ser rigorosos. De uma vez por todas!”.
Matéria indefinida abateu-se sobre o balneário. Rememorando por instantes, seriam os resquícios do desodorizante pulverizado? De onze, só três possuíam roll-on. Bem, não interessa. Fez-se silêncio. Cinco, dez, quinze segundos, até ao baque que desviou o curso da história dos balneários e dos paralelos entre moças. O primeiro estalido resultou na senha que desencadeou uma contenda no balneário.
De súbito, todas as toalhas trazidas com o propósito de secar as partes do corpo estavam, propositadamente, ensopadas e enredadas em si, de maneira a acertar nos restantes, proporcionando alguns segundos de prazerosa dor. Meia hora de pura diversão, adrenalina e belos enrubescimentos. Acabei por me ausentar da competição de última hora e há uma razão para tal: como ainda não tinha tomado duche, todos estariam à minha espera e não sou pessoa para lesar os momentos de lazer. Registo, com superlativo contentamento, o desportivismo e o respeito demonstrados pelos meus colegas pelo facto de, na altura em que atravessava o campo de batalha, nenhuma toalha se erguer para me agastar a chicha.
Como seria se o poder de oratória penetrasse os tímpanos dos meus colegas? A quantas conversas de balneário seria adicionada esta nota puramente reflexiva? Com a ajuda das plataformas digitais, a propagação da mensagem efectivar-se-ia nos assuntos que marcam a agenda e galgaria barreiras continentais? Quantos canais de televisão abririam programas, informativos ou de entretenimento, com a notícia e com o seu autor? Sucederiam incontáveis convites para entrevistas, reportagens, parcerias com marcas em franco crescimento – incluindo casinos e casas de apostas desportivas -, participações especiais em músicas, filmes, séries, espectáculos de stand-up? E, no âmbito mais social da coisa, quantos corpos teria a oportunidade de conhecer intimamente, quantos/as fãs enviariam cartas e declarações de toda a estirpe, a quantas festas e arraiais poderia oferecer a minha presença (especial ou comum, não sou vaidoso)?
O dia empardeceu. Quando a minha mente assentou toda a poeira, empurrava para o bucho uma bifana e um fino, como se diz acima de Coimbra. À medida que os deglutia, tomava consciência do ensejo que estava mais longe de se afigurar como tal. A tristeza apropriou-se daquele resto de dia e dos que se seguiram.
Hoje, tomo consciência de outros dois factos que encaro como decepcionantes: a pavorosa inépcia com que gastei os advérbios de modo que revelam sinonímia com palavras como “inelutável” e “inevitável”, até ao final do segundo parágrafo, e a assustadora incompetência com que deixei de usar advérbios de modo no sentido lato em todos os parágrafos e, assim que me lembrava do falhanço, acrescentar algum prontamente. Como agora.
Ah, resta um último comentário, em trejeito de desafio: se um tal de Morrissey ler este texto, desafio-o a compor uma letra alternativa para a canção Some Girls Are Bigger Than Others.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação