Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Com a torneira direccionada para o vermelho, o ser humano opta pelo catastrófico. Os últimos conjuntos de vinte e quatro horas – perdoem-me a imprecisão – crismaram a aflição de alguns comuns mortais: os Sugus desapareceram sem deixar rasto. Os diminutos rebuçados, inflexíveis no acto de grudar quer ao céu-da-boca, quer a alguns dentes, evadiram do país que cativou a sua preponderância no meio infantil, numa amostra de vil iniquidade. Os Sugus reuniam, concomitantemente, o afã de destruir e enlaçar amizades. O portador da guloseima ascendia, implicitamente, à posição de imperador do recreio. Nas ruas, o tráfico formigueiro, de porta a porta.
Com a torneira direccionada para o azul, após ser temperado com discursos e entrevistas do actual Presidente da República, o indivíduo recua. Talvez a sinalização do extermínio peque por inexactidão. Com o Polígrafo, é melhor respeitar o economato lexical e esquecer o vocabulário ecuménico. Optemos pela designação “vias-de-extinção”, embora as ruelas da compreensão do termo surjam impedidas. Certo dia, uma professora equiparou-o a “prestes a acabar”, mas a explicação teve um préstimo reduzido. A vida é feita de pequenas despensas e eu, pelos cruzamentos misteriosos ao longo do infindável minuto, conheço os compartimentos que armazenam alimentos das pessoas que me são próximas: co-existe, em todas, a divisão dos Sugus, copiosamente apetrechada.
O escândalo dos Sugus tem plantado minas em vários espaços informativos e em postes de eletricidade erguidos na via pública. Parte da imprensa e das agências noticiosas, quando contactadas por mim e pela equipa de trabalho que lidero, desfraldaram a bandeira do fait diver. Desprezo a predisposição para o queixume, mas “filisteu” transformou-se na palavra de ordem durante a conversa de dez minutos. O alarde de uma elite corrupta, podre e cheia de vícios, de tachos e tachinhos, de compadrios e de nepotismo. (Isto entranha-se mesmo, leitor. Quando damos por isso, já é tarde. E serve para tudo).
Tamanho escarcéu noticioso só foi suplantado pela partida que x pregou aos familiares: no longínquo ano de 2001, saiu para rematar as compras de Natal e desapareceu sem deixar rasto. No final de 2025, x foi reconhecida no estado de Carolina do Norte. Sumiços destes carecem de valimento. Com base no universo dos que almejam desaparecer, vinte e quatro anos distante dos olhares mais ternos radica num excelente resultado. A meu ver, trata-se de uma ausência madura, com as ideias bem assentes e na flor da idade.
Todavia, a perplexidade está pespegada a questões por esclarecer. Sabe-se que a cidadã norte-americana deixara, na altura, três filhos, com idades compreendidas entre os sete e os dezanove anos. Supondo que a mais velha já se comporta como recém-adulta e que estima intensamente a reunião familiar em detrimento do desembrulho, qual teria sido a reacção dos outros rebentos ao compreenderem que a prenda da mãe estaria, naquele momento, em parte incerta? De 2002 em diante, o tempo, ao seu estilo, trouxe o entendimento.
Segundo a NBC News, x declinou a ida a tribunal de Rockingham a 27 de dezembro de 2001, após ter sido acusada de conduzir em estado ébrio, em novembro do mesmo ano. O mandato de captura ficou pendente até ter sido reconhecida pelas autoridades que investigaram o caso. As conjecturas são múltiplas, por certo. O ponto que afloro é o seguinte: e a prescrição? A indulgência? O bom senso? O perdão? Vai na volta e a mulher – o historial alcoólico é desconhecido – pediu o divórcio às bebidas espirituosas.
Permitam-me condimentar o caldo de especulações: x era uma alcoólica em recuperação, frequentadora de reuniões anónimas do vício. Em novembro, após uma recaída, foi resgatada do bólide por Adam Jones, nome garatujado na etiqueta disposta na lapela, com marca de água dos AA do estado de Virgínia; durante a ressaca, foi confrontada pelos familiares e assumiu o problema que a afectava; após ter sido fulminada com a frialdade e o desamor, partiu em busca do verdadeiro eu, – ainda não era moda e, por essa razão, considero-a um exemplo vivo de superação – achado num rodeo texano, junto da vaca Milk.
O desaparecimento originou, no seio familiar, graves perturbações no foro psicológico. Para concluir tal frase, um canudo é instrumento acessório. Os filhos sentiram o maior desamparo, o marido sentiu frio na cama. A comparação do sofrimento é atroz. Aquecer uma cama de casal com o próprio suor, sem cooperação conjugal, é um castigo que não desejo ao melhor inimigo. Há limites para a punição. Não sou entusiasta de penas medievais. Além disso, a reformulação da vida amorosa do esposo adentrava pelo maior impasse. Optava pelo luto? Acalentava a esperança de reatar, aceitando o tempo não solicitado? (Optando pelo luto) atafulhava as recordações com x no baú e lançava-se novamente no cosmos do engate? (Acalentando a esperança) estava autorizado a conhecer outras mulheres, naquele período? A cabeça não pode ser só para fazer aconchegar as omoplatas.
Quanto aos herdeiros e consequente abandono, é uma maçada. Mas a vida segue. Se perdessem um braço e uma perna, o futuro comprometer-se-ia em elevada escala. De que forma iriam conduzir um automóvel? De que forma subiriam o interior de um prédio sem elevador? De que forma acartavam com móveis, sabendo de antemão que as escassas possibilidades impediam o contracto de uma empresa de mudanças? De que forma vingariam no surf, desportos radicais e outros? Que estratégia usariam para transportar uma panela a ferver? Como tal não sucedeu, talvez tivessem estudado e arranjado trabalho na área de formação. Ou, quem sabe, efectuado a inscrição no Al Qaeda. Provavelmente, não. Se calhar, é gente que resiste a ensandecer, que se ficou pelo investimento em Bitcoins e pelo aumento da pegada carbónica do planeta.
Há dias, com o intento de saber as últimas sobre este caso, fiz pesquisa na internet. Num fórum, um anónimo partilhou a sua teoria. Dizia “Eu andei com a x na escola. Ela era fascinada por um rebuçado pequeno, embrulhado num invólucro de uma só cor (apesar de a embalagem conter várias) e estava presente em muitas associações que instituíam esforços para os comercializar nas grandes superfícies e cadeias de supermercados dos EUA. Creio que se chama Sugus. As crianças que vivem traumatizadas transformam-se em adultos perturbados. Juntem dois mais dois”.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação