A estadia em casa por obrigação é o início do rastilho da depressão na mente infantil, juvenil, adulta e sénior. Frase retirada da grande enciclopédia verticalmente pousada na mesa de cabeceira do meu quarto e colocada no interior da palidez de uma das suas folhas. A ausência das aspas explicou-se sem que o leitor a questionasse. O tempo livre – mesmo com aulas e trabalhos até ao teto – é infindável e, por essa razão, ocupei-me, recentemente, da observação quotidiana e corrente de algumas expressões ignoradas num cenário normal, mas inolvidáveis num cenário pandémico. A irritação traça-se e tem “pernas para andar”!
A dicotomia “entrar para dentro/sair para fora” requer o acender da lâmpada imaginária sobre as nossas cabeças: “não havia necessidade”, citando Hérman José. A lógica existe e exige respeito ou silêncio (dependendo do orador). Considerei a possibilidade do reforço da posição, mas as conclusões esbarraram na terra poeirenta. As partículas “subir” e “descer” são esclarecedoras independentemente do destinatário da mensagem. Por exemplo, a moratória “entrou para dentro das cabeças dos membros do CDS um certo pensamento de inércia face à celebração do 25 de abril” é agramatical. Sugiro que o leitor efetue as modificações necessárias de modo a torná-la gramatical.
“Subir para cima/descer para baixo” percorre o mesmo trilho de brilhantismo. “Os índices de demência do ex-Presidente da República subiram para cima esta semana”. Faça o mesmo exercício!
Sem escapar ao campo da lógica, sinalizemos um “elo de ligação” entre o parágrafo anterior e o que se constrói. Os procedimentos são os mesmos, a inexistência de nexo não se altera. Normalmente, um “elo” corresponde a uma ligação, uma ponte que cruza duas temáticas distintas ou duas ideias distintas que possam desaguar no mesmo intento. A partícula “de ligação” é infrutífera e confusa, porque pode possibilitar o pensamento duplo da dita cuja. Sempre que a oiço, penso para os meus botões “fizeste figura de parvo, mas vou permitir a continuidade do raciocínio” e cresce em mim a sensação de o locutor se autoenaltecer e pensar para si “uau, bem empregue, vou respirar mais uns segundos”. “José Sócrates foi, em tempos, um elo de ligação entre o Portugal e o Mundo”. Continue a praticar!
Calcorreando mais uns quilómetros e adentrando sobre uma das minhas missivas preferidas, atracamos na paragem do “eu pessoalmente”. As gafes intensificam-se e desconhece-se o pico da situação – frase de caráter familiar nos tempos que urgem. Não gostava de me armar num docente de Língua Portuguesa, mas as partículas “eu” e “pessoalmente” coincidem e são sinónimas. Arrisco até a afirmar que nunca ninguém proferiu um “eu impessoalmente”. Seria de uma não pessoa, provavelmente, mas sem classificação até agora descortinada. Ilustra-se o contexto com uma frase de Joe Berardo numa resposta à Comissão de Inquérito à CGD: “Eu pessoalmente não tenho dívidas, claro que não tenho dívidas”. Aconselho correção e escrita da frase gramatical 100x no caderno diário! A seguinte birra linguística esbarra no mural ideológico: a irritação não é linear e, por essa razão, não absorve pessoas ligadas, por exemplo, ao PAN. “Quem não tem cão, caça com um gato”.
Não sei se o Sistema Nacional de Saúde está em vias de ser construído ou não, mas, caso esteja, seria uma expressão bem utilizada, apesar de não encher medidas no que à lógica concerne, – os gatos não caçam, não apresentam espírito predador – porque no caso de algum “bicho” se magoar ou possuir tonturas pode consultar as regalias concedidas. Faça a correção, mas não é obrigatório…
“É preciso ter lata para andar a reparar no que os outros dizem, sendo que és igual ou pior”, pensam vocês e com toda a razão do mundo. Mas “não tenho papas na língua” e, mesmo que as tivesse, podia continuar a enumerar outras expressões porque cumpro as regras de etiqueta e não falo de boca cheia, apenas escrevo.