Antes de tudo, queria louvar aqui publicamente o Jornal Referência pela oportunidade que deu a um consagrado cronista de gozar dum espaço de opinião. Só é pena ele ter recusado e ter sido eu o escolhido para substituí-lo na tarefa.
Sem que nada previsse, tenho o privilégio de escrever para um jornal de reputadíssimo destaque, e para o Jornal Referência.
Tenho uma sensação algo amarga de que não é o melhor momento para começar alguma coisa. De repente surge-nos o fim do mundo e arrisco-me a ser o cronista do Jornal Referência que nunca escreveu no Jornal Referência. O que podia tornar-se pior: o cronista que era cronista e que nunca escreveu crónica. Vamos lá ver: o Raul Minh’Alma também é escritor e nunca escreveu nada.
Estamos a atravessar dos momentos mais difíceis e inesperados dos últimos anos: a infeção da Covid-19 e a maleita do Big Brother. É claro que uma é profundamente mortal, mas ouvi dizer que a covid-19 também aleija.
O que nos havia de acontecer: um vírus que nos impele a permanecer em casa e outro que por sua vez nos força a sair dela.
“Canta, ó musa, a cólera de Aquiles”.
Perdoem-me, não tenho grande perícia em mudar de assunto.
Sou um apaixonado confesso pela crónica. Nada há de mais faustoso do que a sua qualidade de curta duração. Redigir texto hoje para embrulhar o peixe amanhã. Eis o poder supremo do cronista. Aliás – brincando com Oscar Wilde –, sou capaz de resistir a tudo menos à crónica (e, vá lá, a seios). Porém, deixemos o mais importante e foquemo-nos na crónica. A crónica é, acima de tudo, o café com cheirinho da literatura.
Gosto desta definição: “Crónica não tem nada a ver com opinião, não tem nada a ver com dados e percentagens, não tem nada a ver com tentar convencer ninguém de nada. Quando a crónica faz isso corre o sério risco de virar um artigo”; e desta: “A crónica deve entreter, e se possível, opinar”.
O leitor, presumo dado a hermenêutica, de imediato reparou que as definições inteligentemente citadas são, nada mais nada menos, que justificações para possíveis ataques chauvinistas.
Ritmo agradável e fortemente sugestivo, autêntico sortilégio verbal, humor de qualidade revelador de uma vincada personalidade – nada disso, infelizmente, poderão encontrar nas minhas crónicas. Mas atenção, caros leitores, se não gostarem delas, fiquem sabendo que tenho outras.
Nótula em jeito de recomendação:
Este livro: Vinte e Zinco, Mia Couto
Esta música: Livre, Manuel Freire
Esta série: After Life, Ricky Gervais
Este site: www.teia19.pt
Este ensaio: A Sociedade do Medo, de Francisco Louçã no Expresso.