OPINIÃO: Inércia velha e irónica

Pitada de Pimenta

Venho por este meio – aliás, como já é habitual – não dizer nada demais até porque, se há coisa que eu faço muita bem, é não dizer nada de jeito, de maneiras que aguardo que o livro de reclamações onde constará esta crónica publicada, arranje um espaço disponível e dedicado para qualquer espécie de queziliazinha aqui estabelecida.

Mas não fiquemos por aqui, que há mais para além disso – com toda a minha infelicidade aqui contida. Porque, se o dizer não é nada de jeito, o fazer é muito menos demais. Ora, a complexidade está aí: como fazer algo, ou dizer algo, seja lá o que for, para dissipar esta espécie de moleza habitacional que se empoleira por dentro de meu corpo, e fica a fazer digestão por meses? Às vezes sinto que tenho um velho a fazer a sesta cá dentro de mim que se recusa a sair, ainda que já tenha tentado por diversas vezes assustar o insistente. Cá para mim, que eu não sou de intrigas, é um velho alentejano. Como disse, eu não sou de intrigas, atenção. Estão curiosos? Nem eu, mas para quem já conseguiu ler até aqui, é esta a deixa de ir fazer o caldo verde para não se deixar contaminar com este ócio interminável. E você, sim, você, cuidado com o estrugido.

Bom, vejamos: tentar acordar este velho adormecido com exercício físico é o mesmo que uma grávida, que neste caso vamos chamar-lhe de Susi, não me questionem porquê, tenha o bebé lá dentro a pontapeá-la avidamente, e ela às tantas diz-lhe: epá, oh Márcio Miguel, está lá quietinho que eu agora preciso de concentração no meu yoga matinal. Voltas com mais uma dessas e eu corto relações contigo através do umbilical!

É toda uma descrição estupidamente gratuita e realizada a pensar nas vossas gargalhadas que vos deixo esta linha de pensamento – porque, sejamos sinceros, a última vez que pratiquei qualquer espécie de movimentação mais que ligeira a este esbelto corpo, foi, portanto, digamos, há três anos, na minha última aula de educação física de 12º ano, com o sôtor João Pedro.

Outra: beber café. Tenho plena noção que, a esta altura, 99% dos meus leitores esteja a discordar comigo. De acordo com a minha exígua experiência de vida, e em conversações raras nunca antes vistas pela minha pessoa com outros seres igualmente humanos, a cafeína tem tendência a desenlaçar sonolência. É, desde já, um escândalo que a mim me provoque uma vontade absurda de querer dar três concertos de rock e a estas criaturas lhes sirva como balada dos Patinhos. O problema é que esse impacto monstruoso deixou de fazer efeito, ao passo que agora mais rapidamente me obriga a contar carneirinhos, ao invés de criar-se em minha mente a genialidade de um planeamento de fuga para esses carneirinhos fugirem das amarras dos seus donos. Vá, e porque o bicho se trata de um velhaco teimoso, já tentei gritar a pulmões estratosféricos a seguinte proposta: Oh Almerindo, vai uma partidinha de sueca ou quê?

E não é que nem assim o gajo me desampara a loja? Porque, convenhamos, não há uma lista assim tão grande de coisas que os velhos apreciem de fazer.

Outra: relatos futebolísticos. Qual é o velho que não aprecia futebol? Quer dizer, não me venham com treta dizer que agora os velhos são uns alternos e dedicaram-se à pesca e à caça com a mesma gana que os meus tetravôs. Até porque, vamos lá ver, eles devem andar com o PAN à perna. E, portanto, esse relato foi algo assim:

E o sofá encontra-se isolado, ali, na linha da frente, apetitoso nos olhares com o adversário chão que dará lugar ao levantar do jogador que, alapado, se encontra de rabo virado para as almofadas dispersas. O jogador olha para o chão, o chão conecta aquele olhar maroto de convite, e eis que o jogador, neste caso jogadora, levanta uma palminha de rabo, e depois a outra palminha; que tática esta nunca antes vista, meus senhores! E vai, vai de olhos postos, revirados pelo cansaço, dá-se a urgência pelas canelas, pelos braços de fiambre a seguir, pelas pernas de lula, e… não mexe! Quase! Foi quase desta! A deceção completamente estampada no rosto da jogadora!

E é nesta feita, andando à volta com o almoço instalado no estômago, juntamente com o velho a descansar a soneca arreliada, que me vejo todos os dias sem mexer uma palha. O peso na consciência, esse sacana, que se um dia o apanho sou capaz de o subornar, existe e é de um massacrar irritante que me leva a deixar-vos aqui uma crónica moderadamente massacrante de se ler.

Como tal, por este mesmo meio, venho apelar a que vocês, leitores da minha humilde informação desinteressante, ide-vos em paz – e cuidado com a moleza, fachabor!

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