OPINIÃO: Um Rosto na Sombra

Não tenho em mim todos os sonhos do mundo, resta-me só uma cândida treva fugaz que me dá alento a estas minúsculas palavras a que chamo de crónica. Por vezes nem as quero dactilografar, ou desenhar, ou fazê-las existir de todo. Mas elas persistem por si mesmas através do fôlego sonolento na sombra do instante.

“Escrever é perigoso.” adverte-me o poeta sem rosto que nos apresenta numa reedição contra sua vontade em vida. De tanta contra vontade se produziu boa literatura, como a de Kafka, por exemplo, e por ventura agora posso ter o obscuro livro “biográfico” de Herberto Helder.

Como num imenso poema, onde as frases se assemelham a versos, com menos de duas linhas salteando de parágrafo em parágrafo, a sensação que fica é a de ler continuamente o mesmo poema. Num ritmo avassalador e trepidante pela espinha acima, até os poros da pele se irrigarem em calafrios.

Não há nada que me conforte enquanto o leio. As páginas falam-me diretamente com uma voz para além da realidade factual em que estou presente. Perco-me numa elipse distópica em que desconheço se sou eu que entrei no livro ou o livro que entrou em mim. E pouco importa, há algo que está algures por nenhures e se propaga como um eco no silêncio em silêncio.

“Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam mais pesadas, até ser impossível destruir o silêncio.
(…)
O silêncio é sólido, iluminado por cima, aquecido pelos lados.
Durante seis meses fumo e leio, estendido no tapete.
Depois chega o verão, e subo à montanha, e vou para o mar.
Rebento de sol e água, de odor a terra quente e agulhas de pinheiro.
Estou tremendamente forte.
Bebo vinho.
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
(…)
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos de esgotamento.
Eu sou – e ali está a minha prova.”

É isto, uma réstia de nada que no vácuo possui tanto.

Quando entro no meu pequeno carro francês para conduzir até à tabacaria aberta e comprar uma onça de algum tabaco para me sustentar a penúria de luto, cresce em mim uma tenebrosidade obscura. Uma génese de solitude com um calibre distante do habitual, mais pesado que todo o chumbo no estômago de uma ansiedade rupestre do trivial quotidiano.

Todas as discussões de trânsito ou os nervos à flor da pele se tornam uma vasta pequenez de pontadas sobre a alma emaranhada na pólvora, prestes a rebentar por todos os lados, ansiando um toque leve no gatilho.

Este âmago de nada, proveniente de nenhures, assombra-me no leito da insónia, como um pranto escabroso sem ponta que se lhe pegue. Nos versos de prosa infinita de Herberto Helder, alguma coisa nos agarra. Um nó ata-se e desfaz a lâmina de uma guilhotina arcaica sobre o meu pescoço.

O pé encaixa no calçado num deslize perfeito e os cordões de pó permanecem estaticamente centrados – assim como o livro sob o meu olhar atento que revive as palavras por um cavaleiro de outra realidade – um mito.

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