OPINIÃO: Não escrevi a crónica desta semana

Vocês não vão acreditar. Não consegui escrever a crónica desta semana. Havia tanto para escrever, mas foi-se-me a ocasião. Desta forma, esta semana não haverá nada na minha coluna. A menos que falecesse. A redação do jornal optaria assim por suprir a ausência da minha última crónica em vida numa necrologia redigida pelo um editor à balda. As pessoas choravam e em consequência disso esqueciam-se da crónica que eu deveria ter escrito e não escrevi. Queiram-me desculpar. Tinha inúmeros temas de variado interesse intelectual para discutir e outros de características mais pessoais para debater, como por exemplo: o que quererão dizer as pessoas quando me chamam de deus grego? Em que deus grego estarão elas a pensar? Acaso pensarão em Hefesto, o coxo, ou Vulcano, o marreco, só para escarnecerem de mim? Possivelmente. Se eu ao menos pudesse mandá-las à fava. E o que dizer do advérbio “porventura”? Mesmo sabendo que por Ventura nunca. Ai, que o prazo de entrega da crónica era quarta-feira e já é quinta. Normalmente escrevo à segunda sobre coisas que se passaram no domingo prevendo que quando chegue quarta o assunto ainda se mantenha atual. Mas o assunto que trataria, acaso fosse possível, na crónica desta semana que repito, não existe, era sobre a tendência primavera/verão das estátuas. O quê? Afinal é peleja de bustos. Pensei mesmo que tinha sido o Nuno Gama a dar um ar cromático ao Padre António Vieira. A crónica ia ser escrita num só parágrafo. Anda, portanto, por aí gente avessa a estatuetas. Mas não a todas, parece. Há qualquer coisa na pedra esculpida que faz mossa. Aleija e deixa as pessoas furibundas e indignadas levando-as às maiores atrocidades. Não podemos compactuar com isso. O “Pirilau” do João Cutileiro enerva-me há anos e não é por isso que vou pintá-lo de roxo. Se escrevesse verdadeiramente a crónica ia ser polémico porque não acho que aquilo seja um pirilau. O Cristo Rei para mim é um forcado da moita, mas não é por achar o contrário daquilo que é que vou começar a enfeitá-lo com um barrete de campino e a chamá-lo de facho. Ia realmente ser polémico. Foi melhor não ter escrito. O fenómeno da vandalização de estátuas continua a percorrer todo o mundo. Começou nos EUA aquando aos protestos contra o racismo onde os manifestantes finalmente perceberam que a causa de toda a perversidade de alguém defender a superioridade de um grupo étnico visando, em casos grotescos, o extermínio de uma minoria eram as estátuas. Não é por acaso que elas ficaram caladas este tempo todo. A minha avó disse-me sempre “desconfia dos calados”. Ora aí está. Mas aparentemente há critério na destruição. São só estátuas ligadas ao imperialismo ou ao colonialismo. O Cristóvão Colombo foi dos primeiros a fenecer. Estou curioso para ver a reação daqueles que destruíram a cabeça do Cristóvão quando descobrirem a etimologia do nome do país Colômbia. Atenção, não estou a defendê-lo. Por mim já tinha ido à vida só por se chamar Cristóvão. Parece um nome de gajo do CDS. Se eu tivesse a coragem e a chance de ter escrito isto. No Sul da Inglaterra houve uma petição para que a estátua de Robert Baden-Powell fosse removida, e era talvez a única estátua que me chateava. Se eu escrevesse e a crónica fosse publicada e partilhada nas redes sociais possivelmente perguntar-me-iam, em jeito de curiosidade, quem era este tal de Baden-Powell que mencionei no fim da crónica. Eu responderia que esse senhor era simpatizante do regime nazi e fundador do escutismo. E se há coisas que não tolero é o escutismo. Enfim, não fui a tempo de escrever tudo isto. Fica para a próxima. Se por acaso indignarem-se com alguma coisa, fiquem sabendo que estão a indignar-se com algo que nunca existiu.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Diários, de George Orwell
Este vídeo, no Youtube: 8:46 – Dave Chappelle

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