OPINIÃO: Preocupa-me que possa voltar já

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

A quantidade de material inútil destinado a (des)composição que a minha cabeça alberga é infindável. Destinado à composição, leram bem. Quais os argumentos que poderão dirimir para demover a minha assunção? Digam lá, estou curioso. É a minha verdade, caríssimos. E quanto a isso, nada podem fazer. Penetrem no mundo das “minhas verdades” e verão que a adaptação se realiza ao ritmo daquela malha inicial – eletrizante e de puro lampejo – da música “Cavalos de Corrida”, dos UHF. Eu penetrei e não quero outra coisa, confesso. Assim que o fazemos, o pantone que caracteriza o (nosso?) mundo é invadido por tonalidades até aí desconhecidas. Melhor do que isso, só mesmo um drunfo.

Um dia, ainda vamos dialogar sobre as pessoas que invocam “caríssimos”. Invocam ou evocam? Invocam, pois claro. Esperem. Vou confirmar, antes de fazer asneiras e ser mais um a repousar no cemitério da cultura do cancelamento, ali para os lados de quem é estúpido, entre o palerma e o idiota. Invocar é a forma correta a utilizar. Lamento, não foram a tempo. Peguem na enxada, no martelo, nos pregos e nas galochas e regressem às vossas casas, porque começou mais uma edição da Crónica Criminal. Um dia!? Até pode ser que o faça hoje. Afinal, não tenho nada combinado e preciso de uma ocupação. Quero algo que me ocupe, mas não tanto como a Rússia.

Que caminho trilhei para estar aqui? Será que fiz as melhores escolhas sempre que enfrentei um problema? Utilizei, de forma sensata, todos os conselhos que me foram providenciados? Quantos pedidos de desculpa me devem? As frases que acabo de expor são as perguntas para as quais tenho treinado intensiva e afincadamente assim que for chamado pela estação pública ou privada de televisão. Não, não me estou a fazer ao piso e explico porquê: o piso ficava em maus lençóis (literalmente) ao constatar que acabaria a noite num motel rasca, sem espelho no teto e sem pequeno-almoço. Sou jovem, não tenho projetos de vida num futuro próximo e recuso-me a entrar num reality show para encetar a minha independência financeira. Nada contra, nada a favor.

Imaginem um rapaz que corteja uma rapariga meses e meses, sem a última reparar no pobre coitado. Ele é tímido, tem espinhas na cara, usa óculos redondos com hastes em arame e o seu semblante é composto por apenas cinco pelos. Ela é uma morena exótica de olhos verdes, com corpo desenhado a régua e esquadro e cara mais do que laroca. Encontram-se, pela primeira vez, num espaço aberto de venda de jornais e revistas para todos os gostos. Os olhares cruzam-se, mas rapidamente se desfazem. A rapariga, assolada por um disfarçado nervosismo, procura o material que parece ter findado. O rapaz dirige-se à prateleira tangente ao chão, recolhe o jornal I e fixa o olhar no comportamento da menina, sem que ela notasse a sua presença. Atento, o proprietário caminha na direção da esbelta e pergunta-lhe o que procura. Esta, num misto de embaraço e desespero, gesticula e expõe a sua mudez. O proprietário, tomado pela aflição de não satisfazer o pedido, aumentou os decibéis da sua fala. Ao ouvirem brados, os transeuntes passavam para o outro lado da rua. O desentendimento reinava, o suspense aumentava e a resolução do conflito adiava-se. O tímido não deixou de o ser e, apesar de querer interagir com a rapariga mais bonita que tinha visto, não teve coragem para a interpelar. Por isso, dirigiu-se ao balcão, pagou a despesa e, ao sair da loja, esbarrou-se contra uma pequena exposição. Num ápice, o proprietário correu na sua direção, verificou se não tinha deixado mazelas e ajudou-o a recompor-se. A rapariga, impávida, não teve reação. O tímido saiu da loja em passo apressado, sem olhar para trás. O proprietário regressou à companhia da muda, abanando a cabeça e proferindo um “nunca vi isto”. De repente, no campo de visão, o objeto tão aguardado: a última Mariana. Até hoje, as duas almas não voltaram a cruzar destinos. E ainda bem, porque é sabido que o tímido abomina revistas cor-de-rosa e que tem quebras de tensão sempre que as vê na posse de raparigas esbeltas.

Um dia gostava de cessar um motim no país. Um mau motim. Em cima de um carro, com as mãos na cintura, à espera do que viesse. De collants, camisola de veludo e um boné à pescador, não de calças à boca de sino e camisas justas ao corpo e com o megafone mais caro que o mercado tivesse. Ter umas suíças bem preenchidas, ser sexy de barba desfeita, ter óculos com uma graduação superior à de um catedrático e ficar elegante de fato e gravata. Poder ser chamado de General Rodrigues e de ver uma nação a bater continência à minha chegada.

Se a composição musical do anúncio publicitário de Mokambo fosse feito com as palavras “Bolero”, “Pensal” ou “Tofina”, ninguém a decorava. As pessoas têm medo de o dizer, mas é mais pura das verdades. Não a minha, mas a de uma população.

Já expulsei alguma informação que considero estar a impedir o bom funcionamento do meu cérebro. Fecho a loja por hoje. Erijo, assim, a placa “Volto já”.

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