Do Porto a Itália: Álvaro Morais conquista sonhos e títulos no Hóquei em Patins

Álvaro Morais, hóquei em patins

É habitual dizer-se que a vida pode mudar de um dia para o outro. Álvaro Morais, natural do Porto e jogador de hóquei em patins desde tenra idade, pode afirmar que a teoria está certa e pelos melhores motivos. Em 2023, celebrava um dos melhores anos da sua vida e agora, depois de um convite inesperado, voltou para casa há dias com mais um dos seus sonhos concretizados.

Acabado de chegar a Portugal, depois da sua primeira época a jogar em Itália, no GSH Trissino, o jovem de 29 anos, também conhecido como Alvarinho, preparava-se para passar dois meses no país e na cidade que o viu nascer, a aproveitar entre família e amigos.

No entanto, o mundo do hóquei tinha outros planos preparados: “eu recebo a chamada à Seleção, estou em Portugal, nem sequer tinha material para levar para o estágio, os patins, porque deixei tudo em Itália”. “Nunca me passou pela cabeça que fosse convocado”, confessou ao Jornal Referência.

O que é certo é que Álvaro Morais tinha sido uma das escolhas do selecionador Paulo Freitas – com quem já se tinha cruzado há alguns anos noutro clube – para o campeonato europeu, sendo uma das peças-chave na final do WSE Euro Men, que decorreu no início deste mês em Paredes. Na partida contra França (4-1), o jogador foi o autor do golo aos 19 minutos.

Portugal venceu, é campeão europeu de Hóquei em Patins pela 22.ª vez e esta foi a estreia de Álvaro Morais na Seleção como sénior. “Foi, sem dúvida, uma alegria gigante”, exclamou.

Álvaro Morais, hóquei em patins
Foto: DR

“É o culminar de muito trabalho, de muita esperança e também alguma sorte à mistura, mas era um facto que era um sonho ir representar a Seleção Nacional sénior, porque já o tinha feito nas camadas jovens. Mas claro que é o sonho de qualquer atleta representar Portugal, ainda para mais em casa, com um pavilhão repleto de portugueses a apoiar”, afirmou Álvaro Morais.

No momento, custou “um bocadinho a assimilar tudo”, mas foi “uma alegria muito grande”, depois de um mês de trabalho, conseguir ver a sua família “em êxtase e feliz”. “A maneira como nos reerguemos foi, de facto, de uma equipa de uma união tremenda e só assim seria possível”, sublinhou.

Agora, Álvaro Morais já está de regresso às rotinas em Itália, mas partilhou que também o convite para mudar de país aconteceu sem estar a contar.

“Eu tinha o sonho de ir jogar em Itália mais tarde. Provavelmente, seria mais tarde. Nunca pensei naquele momento que fosse num futuro tão próximo, mas, quando recebi a proposta, foi muito difícil dizer que não”, recordou. Depois de ponderar a decisão em família “inúmeras vezes”, com algum “receio”, já que tinha uma filha “pequenina, que ainda não falava”, optou por aceitar.

“Neste momento, ela já fala duas línguas! Felizmente, as crianças aprendem mais rápido do que nós, é uma realidade! E estamos muito felizes”, disse, entre risos. Aliás, sempre que é possível, a filha está na bancada a ver os jogos do pai: “ela acompanha-me sempre para todo o lado e gosta e vibra muito”.

“A parte mais difícil é estar longe”

Apesar da felicidade e de estar a descobrir uma nova vida noutro país, Álvaro Morais reconheceu que a distância da família é o mais complicado nesta carreira.

“Sem dúvida que a parte mais difícil é estar longe, mesmo estando aqui em Itália, felizmente, tenho a minha mulher e a minha filha aqui comigo, mas, se calhar, há muitos momentos em que gostaria de chegar a casa e estar com os meus pais e com a minha irmã. Mas são escolhas que nós fazemos e já sabemos que é assim”, declarou. “A única coisa que podemos fazer é conseguir conquistar os títulos, que é para isso que trabalhamos e, ao fim, conseguirmos orgulhar quem nos rodeia, sobretudo, a nossa família”, acrescentou Álvaro Morais.

Além disso, o jogador estava habituado a ter sempre os pais e a irmã na plateia a ver todos os jogos, mas, este ano, foi “completamente atípico”: “tenho a certeza que para eles é um sofrimento em casa a ver os jogos que nem me passa pela cabeça”. “E, depois de não estarem presentes nas duas conquistas que eu tive este ano em Trissino – que foi a Copa Italiana e o campeonato -, conseguirem estar presentes no cumprir do meu sonho, que é ser campeão europeu, foi, sem dúvida alguma… vê-los ali a sorrir de orgulho, que eles são pessoas muito frias, mas basta um olhar e eu percebo que, de facto, estão extremamente orgulhosos e isso deixa-me lavado em lágrimas”, contou.

Álvaro Morais, hóquei em patins
Foto: DR

No que toca à família, é também dos pais que se lembra e a quem agradece o esforço, especialmente durante os primeiros anos em que praticava este desporto.

Quando ainda era “muito pequenino”, aos dois anos, tinha um vizinho que jogava hóquei em patins e que vinha “muitas vezes” para o seu terraço. Certo dia, levou-o ao antigo pavilhão do FC Porto e Álvaro Morais quis experimentar o desporto, que não mais largou: “nunca mais tirei os patins até hoje”.

O atleta lembra-se que o pai saía do trabalho “a correr” para poder levá-lo aos treinos, “no meio do trânsito”, e que, mesmo assim, os pais “nunca desistiram”. “O esforço dos meus pais foi algo que é de louvar e que lhes agradeço muito e certamente jogo para orgulhá-los e para eles pensarem que valeu todo o esforço, todas as horas que perderam comigo”, declarou, recordando que também a irmã, mais nova, jogou hóquei em patins.

“A paixão que eles têm pelo hóquei é uma coisa extraordinária”

Ao longo dos anos, Álvaro Morais passou por vários clubes, como o FC Porto, AD Valongo, OC Barcelos e Sporting CP. À medida que foi crescendo como pessoa e como atleta, foi percebendo que o nível de profissionalismo e a exigência também iam aumentando, então, quando acabou o ensino secundário, optou por dedicar-se em exclusivo ao hóquei em patins.

Têm sido várias as conquistas que já levou para casa e o ano de 2023 foi especialmente marcante na sua vida profissional, mas também pessoal, já que foi pai pela primeira vez. Desde então, além de ter mais uma fã na primeira fila, passou a ter novos rituais antes de entrar em campo: “tenho de me benzer e tenho de dar quatro beijos na tatuagem da minha filha e no stick, no nome da minha filha”.

Álvaro Morais, hóquei em patins
Foto: DR

A viver um novo papel na sua vida com uma família criada, Álvaro Morais tem continuado a seguir sonhos na sua carreira e a experimentar várias emoções, que, no fundo, é o que mais gosta neste desporto.

“O facto de estar a perder e, num momento mau em que ninguém acredita em ninguém e que ninguém acredita no nosso próprio trabalho e, de repente, de um momento para o outro, somos os melhores da Europa, neste caso”, destacou.

“A melhor parte do hóquei é acabar um campeonato, neste caso, e perceber que o trabalho que foi feito foi bem feito e não ficar a pensar: ‘podia ter feito isto, podia ter feito aquilo’. É acabar e dizer: ‘o meu trabalho está feito, bem feito, orgulhámo-nos, a nós, à nossa equipa, à nossa família’. E, se possível, repeti-lo ano após ano”, referiu ainda. “É chegar ao fim do dia, depois de um treino, e saber que aquelas duas, três horas que estivemos ali valeram a pena e que nos fazem ser melhor no dia seguinte, não desistir de trabalhar. (…) Porque as pessoas veem os resultados, mas não sabem o trabalho que é feito por fora e que também somos seres humanos e que temos as nossas vidas familiares e os nossos problemas. E o importante é que, quando estivermos dentro das quatro tabelas, nos esqueçamos de tudo isso, nos foquemos naquilo que é importante e consigamos dar a volta por cima para ter o maior sucesso possível”, concluiu Álvaro Morais.

E se de um lado estão os familiares e amigos a torcer na primeira fila, também o apoio dos adeptos dos vários clubes tem tido um papel importante na sua carreira. Como exemplo, Álvaro Morais recordou o que pôde viver em Barcelos nos anos em que lá jogou: “é, de facto, uma coisa louca, a paixão que eles têm pelo hóquei é uma coisa extraordinária”. Em Itália, o jovem confessa que o desporto é sentido de forma diferente, mas que “a paixão que os adeptos do Trissino têm pelo hóquei também é realmente extraordinária”.

“Queria deixar uma mensagem de agradecimento a todas as pessoas que contribuíram para que o sucesso seja possível e obrigado por acreditarem sempre em mim, no meu trabalho e por estarem sempre lá, sobretudo, à minha família, aos meus pais, à minha irmã, à minha mulher e à minha filhota”, mencionou Álvaro Morais.

Álvaro Morais, hóquei em patins
Foto: DR

O atleta ainda tem vários sonhos por cumprir, entre eles, ser campeão do mundo e também ganhar a Liga dos Campeões pelo GSH Trissino “seria a cereja no topo do bolo”, mas, por agora, garantiu estar a viver uma fase “muito feliz”.

“Antes de ganharmos o Europeu, o treinador, o Paulo Freitas, dizia-nos uma coisa que nos deixou a pensar, que é: ‘aprender a gostar da jornada’. Ou seja, aprender a gostar daquilo que estamos a fazer, do dia a dia. E, realmente, é uma mensagem muito curiosa, que faz todo o sentido, que é chegar ao fim de um dia de trabalho e estar de consciência tranquila, estar feliz. Estar bem é fundamental, a saúde mental é fundamental também nisto”, rematou Álvaro Morais.

“Lutem sempre pelo que querem, trabalhem muito, porque sem trabalho nada se consegue. O talento não chega”, deixou ainda como conselho a quem quer iniciar uma carreira no desporto, realçando a importância de se divertir durante o processo.

Foto: DR

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