Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
De facto, comparativamente à magnanimidade de outros, este fim-de-semana ocupou as posições mais próximas da base. Nada atingiu, até agora, aquele em setembro de 2023, no qual percorri as searas mais próximas de Boliqueime, a bebericar da termos com café quente tal era a instantaneidade e a ferrar uma sandes do melhor leitão da Mealhada, cujo nome se evadiu da memória. Uma mochila às costas, virgem, um passo digno de um profissional daquelas andanças e um espírito de missão inabalável: a tentativa de estabelecer um contacto com a paz interior – não vou à guloso, dizer que a encontro e depois vai-se a fazer as contas e nada feito – e penetrar no sector da pastorícia, como zaragatoa na narina em tempos de SARS-COV-2. (A parte da mochila aos costados é invenção, mas sentia-me peixe fora de água se não a mencionasse. As caminhadas nunca se desapegaram de mochilas, pois não?)
A adjacência a uma das actividades do sector primário sinalizava algo. Aliás, não se limitava a sinalizar: cravejava-me a testa com intermitentes feixes de luz a fugir para o laranja distintivo do diospiro, fruto originário da China e cultivado no Japão e Índia, a partir do século XVII, rico em vitamina A e nutritivo. A laranja, digam o que disserem, apresenta uma cor menos vivaz e exuberante e, por essa razão, tem preservado desde a génese o recato e a privacidade na fruteira de muitas casas. Perdoem-me a divagação. Na altura, presumi que a incidência estivesse directamente ligada à quantidade de verde tinto ingerido e à reprodução mental vívida de reminiscências aleatoriamente seleccionadas. O pastor que me indicava o caminho acariciava-me com o cajado e bradava “levante-se, homem de Deus, que as ovelhas estão a enfurecer. Repare na quantidade de lã que repousa no solo! Isto é puro stress!”.
Viajemos até ao fim-de-semana transacto. Um rapaz pleno de jovialidade, sem compromissos maritais e com um acervo de meneios corporais que eclipsam todos os noctívagos das mais variadas pistas de dança tem, como é do senso comum, inúmeros convites para propalar charme e requinte. Principalmente, ao domingo de manhã, altura na qual os espaços nocturnos estão mais apetecíveis do que nunca, porque os fortes, os resistentes e os dominadores de drenas ainda lá estão. Recordo a primeira, há alguns anos, onde me subalternizei à estupefacção do saber (teoria) e da perícia (prática) de vários colegas ao nível da canalização e do escoamento de água de um edifício. Porém, o esqueleto pedia silêncio e repouso absoluto e, respeitando a exigência, optei pela presença numa cerimónia fúnebre. O ambiente e o contexto assumem contornos completamente díspares, é certo, mas privilegia-se, igualmente, a estima pelas novas tendências no que à vestimenta diz respeito. Erijo, ainda, um parecer relativamente à pose alheia: o contemplar, de mãos nos bolsos ou de braços cruzados, sob a protecção do disfarce no olhar, torna-se estranha quando a música de fundo se resume a cochichos (fora da capela) e a uma amálgama de pranto e silêncio (no interior da capela).
O ritual que se vislumbrava é sobejamente conhecido: cumprimentar, por método de aperto de ossos e de encostos de cara sem a irrigação dos lábios, os familiares do defunto e pessoas do círculo mais próximo. Sucumbi, de imediato, àquela tramitação. Não chamemos o Direito para a conversa, a obrigação não passa nesta porta. Abraço aqui e cruzamento de bochecha acolá, segui o encalço da progenitora. A fila não se assemelhava a uma centopeia, embora pesasse a quantidade de irmãos, filhos dos irmãos e respectivos cônjuges. Findo o rito, cubro a tez repleta de gotículas de exsudação com o lenço de papel que trazia no bolso e saio da frígida construção de ruga granítica. Exalo, por breves segundos e segredo aos meus familiares: “Creio ser o momento de, após uma discussão devidamente fundamentada e sem técnicas argumentativas, criarmos uma sinalética para contorno de embaraço pontual”. Miraram-me, com desdém, e ignoraram a sugestão.
No recato conjunto, fui vítima de indagação. O tom reuniu um teor inquisitivo. Contudo, acedi à explicação e relatei o que acontecera: um dos familiares que tinha cumprimentado naquela manhã tinha dedos a menos. O sentido táctil que me foi atribuído é apurado. A minha mãe esfregou-lhe a face e não teve como reparar, mas o meu pai falhou redondamente. Como os dedos. Depois, desabafei e assumi que pensei em variados tópicos que impossibilitassem a ligação com o incidente. Ou acidente. Sem sucesso. Por alguma razão, todos os fogueteiros que conheço arrendaram quartos na minha mente. Após lamentarem o sucedido, os dois apressaram-se a jogar Pictionary, olvidando todas as categorias, excepto a de Mímica. Os sinais com os dedos vieram em catadupa. Repreendi-os, alertando para o humor em determinadas situações. Propus o arranjo para mais tarde.
A ignição da máquina do tempo foi novamente accionada e a agulheta indica o dia 28 de setembro de 2023. Momentos antes de pastorear, numa das ruas de Boliqueime, uma habitante local, ao deparar com a queda do saco de compras que continha garrafas de vidro, exclama “Oh! Pastor! Que sorte a minha! Onde é que o Pastor me faltou?”. Há mais. Quando me tentei levantar do chão, desconcertado com as pancadas no lombo, o pastor exibiu o seu queixume acerca de um dente que tinha cuspido entretanto. A estrutura das estruturas de origem óssea do campestre era débil, desarticulada e parecia de costas-voltadas e, por essa razão, a mensagem subiu ao éter e lá permaneceu. Subsistiram estas palavras “agora também me caem dentes enquanto pastoreio? Que palhaçada! Fiquei sem três dedos em Angola, em 1963… Deus podia ter-me poupado ao logro da dentição. Além disso, a minha irmã está por um fio!”.
Dois anos volvidos, falece uma irmã de um tio-primo meu. Um dos irmãos do meu tio e da defunta carece de indicador e dedo grande. A 28 de setembro, dois anos depois. “E a mulher de rua que questionou a falha do Pastor? Onde entra nesta história?”, perguntam os leitores.
Se soubesse, seria detective. Como não sei, sou conspiracionista a 80%. Falta-me ligação entre o produto final e as últimas teias urdidas com zelo. Nesta matéria, (também) não singrarei. Pretendia dar a esta história umas pinceladas do episódio de Mr.Woland, em Margarita e o Mestre. Falta-me ser Mikhail Bulgakov. Em tudo.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação