OPINIÃO: A morte num copo de Gin

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Contemplado o primeiro resquício vital e humano, o paradoxo e o abstracionismo das questões complexas e a fé entraram num bar e competiram pela medalha de ouro do alcoolismo. A ingestão do pai de todos os vícios intensificava-se conforme o movimento dos ponteiros do relógio, disposto no cimo de uma parede de fundo negro. A conversa entre os três visados não passava de um lançamento contínuo de opiniões, imunes a qualquer tipo de encaixe ou relação entre si. Simultaneamente, os copos, esses paladinos da verdade (a gíria dita as regras, nós obedecemos), preenchiam o balcão e não restava qualquer vazio, por ínfimo que fosse.

O intento nesta pequena dissertação – mero desabafo, no fundo – é colocar a morte no lugar que ela merece ocupar. Inquieta-me saber que a população, de modo geral, a sobreponha a tudo e a todos e que considere que ande de mãos entrelaçadas com o destino: não pela veracidade, porque existe alguma, mas pela capacidade que as mentes psicologicamente débeis têm para permitir a interiorização da missiva. Depois, durante aquelas reflexões ditas profundas de que toda a gente padece e com a ideia agrilhoada ao motor cerebral, são edificadas conclusões alicerçadas na infelicidade e no queixume e choros vãos.

O espírito reacionário diante do paradoxo existente traduz-se insuportável: avivam-me a memória todas as formas de perecer, desde o corte esguio provocado por uma navalha afiada à doença incurável. Se a sina está escrita com morte, para quê adorná-la com a metáfora da vida? No fundo, a premissa do possível argumento é “viver para um dia mais tarde morrer”! O imbróglio e a confusão numa das questões às quais as respostas são uma barafunda de pareceres. Desde o momento aquando da primeira meditação acerca do assunto, estranhei a incapacidade dos que à minha volta se acercavam, questionei-a e considerei-a anormal. Depois, cresci e ultrapassei a fase da adolescência estupidificante, que se estende desde o cingir do mundo ao nosso próprio ego ao facto de achar que a vida nada tem para nos ensinar.

A morte é fruto de uma pintura abstracionista, com alegado desconhecimento do pintor. É a escultura que se ergue, à base de mármore da decadência e xisto de sofrimento. Quando é que alguém sente que a hora chega? Qual é a sensação de ser invadido por um corpo estranho e delicado, sem que a mesma tem a preocupação de pedir permissão? A razão alia-se a algum tipo de emoção? Quem foi o inventor do quadro que um dia mais tarde se degrada sozinho? Assemelho o caso à designada “síndrome de Dorian Gray”! Nenhuma alma viva se sente em pleno dos seus poderes para apunhalar o retrato da sua morte? Atenção, não defendo a eternidade, defendo, sim, a livre vontade de ir para onde quer que seja: uma eutanásia consciente.

Advém, do que anteriormente foi descrito, a questão da fé. O predicado que restringe ou favorece a temática. A morte é um predicado que inquieta a fé e que a agoniza durante toda a estadia no solo terrestre. A crença no paraíso e no inferno é uma constante, mas a morte inviabiliza o esforço prestado. A reencarnação é uma dádiva e uma oportunidade confinada aos Homens, mas rapidamente se dissipa e tudo volta à estaca zero. Então, se a vida é destinada ao desaparecimento, por que razão se confere outra oportunidade? O ceticismo é enorme e a incompreensão mantém-se. Àqueles que consideram ser matéria estéril e uma clara causa de uma futura putrefação, a morte não intimida.

Descendentes do vento, a energia eólica desaparecerá. Será que este é o sentido da vida ou a vida não possui mesmo sentido?

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