Pitada de Pimenta
Mais um dia. Apenas mais um dia.
Sento-me na secretária – os olhos ainda a espreguiçar-se lentamente – e ligo o computador. Ansiedade, ansiedade, ansiedade. A repetição que se tornou rotina. A abundância de tarefas será a chave para nos mantermos ocupados, desleixados mentalmente dos receios e das preocupações atuais. E não será também a pressão de nos ocuparmos, uma preocupação a dada altura? Para!, nem que por uns instantes. Robótica nos movimentos, humana nas sensações – assim vive quem por idênticos momentos passe e se sinta.
Mais um dia. Apenas mais um dia.
Pesquiso: twitter.com. Faz-se o clique e, em segundos, estou na página. Tudo é tão fugaz, tudo parece caminhar para o instantâneo, tal como a rapidez com que teclo, com que os meus dedos conhecem as teclas sem as procurar, sem olhar… Arrasto o cursor, já sei o que fazer, e escrevo o nome do utilizador e a palavra-passe num ápice.
Mais um dia. Apenas mais um dia.
Olho para a caixa das mensagens. A solidão abate-se contra o corpo. Respiro profundamente, nada como regressar de uma noite para fazer uso das forças matutinas recarregadas. Vamos a isso! Há que fazer, há que trazer a motivação que fora encontrada perdida no outro dia, junto do precipício. Acho que é ela, acho que pousa já, acho que a sinto. Ansiedade retoma, garantindo-me que não estou assim tão sozinha quanto pensei. Afronta-me.
Procuro o que se fala, do que se debate, do que se informa, portanto, recorro aos assuntos do momento em Portugal: Universidade; António Costa; Coronavírus; Portugal; Twenty One Pilots; André (?).
Mais um dia. Apenas mais um dia.
É na Página Inicial onde encontro a linha débil do meu atestado de paciência e controlo emocional. Num tweet alguém escreve sobre os alunos que estão a estudar nas universidades, discutindo contra os restantes do Ensino Secundário.
A balbúrdia digital esgota-me. A ansiedade borbulha, os meus sentimentos crepitam no corpo… ui, precipício. Precipício. Cheira-me que…
Mais um dia. Apenas mais um dia.
Não leio. Não quero ler, senão repreenderei os meus pensamentos logo a seguir, misturando-os num caldo hostil. Depois, um meme. Um qualquer significado que ainda não consegui captar. Uh… alguns dos meus seguidores passam por lesões emocionais. Quem diria… não fossem os adolescentes a massa efervescente que tem preocupado profissionais a nível de ansiedade, por exemplo. Ou depressão.
Lê-se – quem quiser assim o ler e não fazer de conta – a variedade de testemunhos que nos possam englobar a todos. Alguém reclama por “Paciência”. É uma rapariga – jovem, um semblante feliz no designado “ava” (foto de perfil). Ninguém diria que a felicidade por ali abundasse. Outro alguém que me soa mais consciente, diz-nos através de um tweet: “A Internet não é para todos, há pessoas que não têm estofo para aguentar alguma crueldade que se passa aqui” e não usa ponto final. O mesmo rapaz acrescenta: “O melhor é deixar de expor algumas coisas ou simplesmente não usar” – de novo, sem ponto final. E não vejo que mal têm estas frases sem o recurso do ponto final, talvez a mensagem seja mais necessária que qualquer espécie de critério de correção.
Mais um dia. Apenas mais um dia.
Um pouco mais para baixo, deambulando pelas caras desconhecidas, encontro um rapaz. Afirma: “Sinto sempre um mau clima nas discussões online”. E agora, numa atualização da página inicial, leio alguém que não sigo: “eu ando tão tão tão triste”. Interessante que, uma rede social como esta, que possa conter um teor mais perigoso que propriamente o contrário, onde a balança dos aspetos negativos costuma pesar, alguém se sinta na disponibilidade corajosa de se expor sentimentalmente. Custa-nos dizê-lo a alguém que vive na mesma casa, a um irmão, a um primo, a uma mãe, embora consigamos tweetar perante desconhecidos.
Mais um dia. Apenas mais um dia.
A bolha é isto. Não mais do que isto, por vezes. Entrando nela, talvez saibamos reconhecer quais são os nossos limites – tal como os outros podem conhecer os seus. Talvez esta bolha nos possa iludir, por vezes, relativamente à natureza da realidade, se bem que, em outras situações, nos possa servir de apoio a prosseguir. Quando essa bolha é perfurada por alguns membros, quase todos poderemos ser afetados. Uns (aparentemente) ilesos, outros visivelmente magoados.
Mais um dia. Apenas mais um dia.