OPINIÃO: Isto chega a ser saudosismo. E, por essa razão, enfurece-me

Romão Rodrigues
Romão Rodrigues, Mestre em Jornalismo e Comunicação e "o melhor a estender-se no chaise long"

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Vamos ser pachorrentos da nostalgia só por uma vez durante novembro. O que me dizem? Vá lá, não custa assim tanto. Evadimo-nos da muita racionalidade que nos veste só por um bocadinho e atiramos um juízo aleatório para o debate público em jeito de saudosismo. Qual é o mal? A vida não é só trabalho, caros compatriotas. De que vale trabalhar imenso se não o dissolvemos naquilo que nos faz verdadeiramente felizes? Não sejam teimosos. Cá vai! Portanto, a rainha Leonor tem 18 anos. A Leonor de Espanha, filha de Letícia e de Filipe número seis. Foi o texto desta quinzena, leitores. Boa noite!

Queria que ficassem com a ideia acima grafada, mas não suporto esta vontade com nenhum argumento convincente. Cada um com as suas bizarrias. Mas está tão crescidinha a rapariga! Já prestou juramento à bandeira e já pousou não sei para onde! Vi na Lux! É maior de idade, pode ser a rainha mais jovem do trono desde o tempo do arroz de um século menos vetusto que o quinze. Como o tempo passa! Apesar de régia, ainda há pouco tempo era uma criancinha que brincava com bonecas/os e agora está uma mulher! A vida é, realmente, o acender de um fósforo.

Estas frases acionam interruptores variados. Um deles, é o do suicídio. Outro é o do homicídio. Existem mais, mas estes fervilham primeiro. Entre por termo à nossa vida ou pôr termo à vida de quem profere certezas ignóbeis, prefiro optar pela segunda opção, enaltecendo a minha cobardia. A alternativa a escutar patranhas desta categoria é perecer sem dor e num estalar de dedos. Está explicada a razão pela qual todos os portugueses deviam estar autorizados a rubricar a posse de arma. Oxalá este género de conversas cessasse pura e simplesmente. Se estas conversas pudessem cessar, eu agradecia. O Diácono Remédios tinha uma maneira muito particular de acabar com esta pouca vergonha.

A estória anterior não tinha futuro. Estava predestinada. Radicalizei tanto a posição sobre maneiras saudosas de encetar um discurso que não fui capaz de colocar freio à cadência que o texto merecia, se escrito por alguém que percebesse da poda. O saudosismo é chato? La isso é. As pessoas que o praticam são igualmente aborrecidas? Lá isso são. Sou tão atrasado que não consigo compor um texto em torno da temática do saudosismo sem passar os três parágrafos? Lá isso sou. Mas vou armar-me em Sérgio Godinho agora?! Era doce, era doce. O seu lirismo e o meu, num comparómetro, deus me livre de tal humilhação. Fugia a sete pés se o grande cantor, autor e ator readaptasse a canção em função desta minha incontinência escrita. Mas no que é que eu estava a pensar quando invoquei o nome da Leonor em torno do tempo que passa, utilizando-a como cobaia para efeitos de hilaridade?

Existe uma falta de tudo neste suposto texto. Como é que apago a borrada que acabei de fazer? Já sei! E se preparasse um queixume temperado com o facto de aquilo que leio e vejo não me dá tanto prazer como aquilo que vi ou li? Parece-me uma ideia excelente. Vou tentar.

Há tanto tempo que não vejo um filme. Tenho saudades de estar no sofá, de saborear uma chávena de café e de imiscuir-me numa tela. Se calhar, optaria por um westernzito. Já não vejo um desde 2019. O Once Upon A Time In West (Era Uma Vez no Oeste) marcou-me imenso. Agora já nem me lembro bem da história, mas sei que na altura o filme me intrigou. Pensando melhor, vou começar a acompanhar uma série. Mas qual? Ainda estou a finalizar Six Feet Under (Sete Palmos de Terra) e não quero abandoná-la. Há ali qualquer coisa que me prende, fico assoberbado com os diálogos perante a Morte e perante o tratamento pragmático que a agência funerária Fisher fornece aos entes do ex-querido, fosse ou não uma besta.

Ou então vou ler alguma coisa. Estar colado a um ecrã quando posso inchar o meu intelecto com cultura em formato papel (a possibilidade de se comprarem e-books não é discutida cá em casa). Vou pegar ali n’Os Pescadores, de Raúl Brandão. Que giro, o autor dedica o livro ao avô, falecido no mar. Ele percorre a costa e descreve a realidade dos profissionais daquela atividade nas primeiras duas décadas do século XX. A miséria, a angústia provocada pela morte, as técnicas piscatórias arcaicas, a falta de apoios de um Ministério em quebranto e vítima de uma República em decadência. Raúl Brandão é, para além de escritor, “descritor” dada a perícia da sua narrativa.

Agora, tudo aquilo em que toco se empoeira. Debruço-me sobre qualquer peça que tem a função de hobbie – se assim lhe quiserem chamar – e nada me interessa. Já não se fazem coisas como antigamente. Não sei se para vós isto faz algum sentido. Para mim faz todo. E o que importa verdadeiramente é aquilo que eu sinto. “Este menino tem a arrogância a escaldar, a prepotência a ferver”.

“Ah, mas o menino que escreveu o texto queria provar, através deste mausoléu de nada, que toda a gente é saudosista à sua maneira. A conclusão era essa. Deveras engraçado, deveras…”

Sendo assim, eu termino o discurso saudoso. Não vejo condições para continuar a governar neste espaço. A minha consciência está tranquila. Mas demito-me. Li por aí que está na moda e sou adepto das tendências.

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